Vazamento de estireno em Manaus expõe desafios da segurança industrial e deixa mais de 600 pessoas atendidas
Especialistas defendem investimentos em monitoramento, manutenção preventiva e equipamentos certificados para reduzir o risco de acidentes industriais
Por Edinei Campos
Redacao Amazonia Onze

O vazamento de monômero de estireno na unidade da Innova, no Distrito Industrial de Manaus (AM), reacendeu o debate sobre a segurança em instalações que armazenam substâncias inflamáveis e tóxicas. O incidente, registrado na tarde da última quarta-feira (15), mobilizou bombeiros, provocou a evacuação de empresas e de um shopping da região, interrompeu atividades em escolas e levou centenas de pessoas a procurarem atendimento médico após a exposição ao produto químico.
Segundo a Prefeitura de Manaus, até a tarde de segunda-feira (20), 648 pessoas haviam sido atendidas nas redes pública e privada de saúde. A maioria dos pacientes relatou sintomas respiratórios, como irritação nas vias aéreas, além de dores de cabeça, tontura, náusea e irritação nos olhos. Apenas um paciente permanecia internado.
O levantamento da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) mostra que 67% dos atendidos estavam no ambiente de trabalho quando tiveram contato com o gás. Outros 19% relataram exposição em casa após sentirem o forte odor do produto, enquanto 10% disseram estar em áreas externas. O tempo médio de exposição foi estimado em cerca de três horas.
A pasta também informou que dois óbitos seguem sob investigação para apurar eventual relação com a exposição ao estireno. Um dos casos envolve um homem de 67 anos que morreu na quinta-feira (16), após procurar atendimento médico com sintomas de mal-estar. O outro é de um homem de 60 anos, que morreu no sábado (18), depois de dar entrada em uma unidade de saúde particular com problemas respiratórios.
Emergência mobilizou bombeiros e interrompeu atividades
O vazamento ocorreu às 17h36 de quarta-feira na Unidade IV da Innova. O forte odor do estireno foi percebido em bairros próximos ao Distrito Industrial, levando à evacuação preventiva de um shopping e à suspensão temporária das atividades em empresas, escolas estaduais e serviços públicos da região.
Desde o início da ocorrência, equipes do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) atuaram no resfriamento do tanque onde ocorreu o incidente para evitar o aumento da temperatura e reduzir o risco de incêndio ou explosão. A principal hipótese investigada é uma reação espontânea no interior da estrutura.
No domingo (19), medições realizadas pelos bombeiros confirmaram que não havia mais emissão de estireno no local.
"Nesse momento não encontramos qualquer resíduo do gás estireno tanto no entorno como dentro da área isolada. Estamos com emissão zero a partir do tanque atingido", afirmou o comandante-geral do CBMAM, coronel Orleilso Muniz.
Apesar da eliminação do vazamento, a corporação informou que continuará realizando o resfriamento do tanque durante o processo de retirada do produto químico, operação que poderá levar meses.
Após avaliações técnicas conduzidas por um comitê formado por órgãos estaduais, pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) e pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Amazonas (Crea-AM), as atividades industriais, escolares e os serviços públicos da região foram liberados para retomada na segunda-feira (20).
Especialistas alertam para riscos em áreas industriais
Embora o incidente tenha sido controlado sem explosões, especialistas afirmam que episódios como o registrado em Manaus evidenciam os riscos associados ao armazenamento de líquidos inflamáveis.
O estireno é amplamente utilizado na fabricação de plásticos, borrachas sintéticas e poliestireno expandido (isopor). Além de inflamável, a substância é considerada tóxica e, quando inalada, pode provocar irritação nos olhos, nariz e garganta, além de dores de cabeça, tontura e náusea.
Para Leandro Ducioni, coordenador de Serviços de Engenharia da Schmersal, empresa especializada em sistemas de segurança industrial, o maior desafio está em evitar que vapores inflamáveis escapem dos tanques de armazenamento.
"Quando o vapor se mistura ao ar e encontra uma fonte de ignição, pode ocorrer um incêndio ou uma explosão. No caso do estireno, existe um agravante: além de inflamável, ele também é um produto tóxico", afirma.
Segundo o especialista, o monitoramento contínuo da temperatura e da pressão dos tanques, aliado ao uso de sensores, válvulas de alívio e equipamentos certificados para áreas classificadas, é essencial para reduzir o risco de acidentes.
"A tecnologia ajuda a identificar alterações antes que elas se transformem em um acidente, mas precisa fazer parte de um projeto adequado. Todo o sistema deve seguir as normas específicas para atmosferas explosivas, desde a instalação até a manutenção", diz.
Segurança deve começar no projeto das instalações
Especialistas lembram que o caso de Manaus não é isolado. Em 2025, vazamentos de gás nas plataformas P-52 e P-40, na Bacia de Campos, também levaram à interrupção preventiva de operações, embora sem registro de vítimas.
Na avaliação de profissionais da área, a prevenção depende de um conjunto de medidas que começa ainda na fase de projeto das instalações industriais e inclui inspeções periódicas, manutenção preventiva, monitoramento constante e capacitação das equipes responsáveis pela operação.
Além dos impactos à saúde e ao meio ambiente, acidentes envolvendo gases e vapores inflamáveis podem provocar paralisações da produção, prejuízos financeiros e efeitos sobre toda a cadeia produtiva.
Enquanto as causas do vazamento seguem sendo investigadas pela Polícia Técnico-Científica do Amazonas, o episódio reforça a necessidade de revisão permanente dos protocolos de segurança em indústrias que trabalham com substâncias de alto risco, especialmente em áreas próximas a centros urbanos.
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