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Manifestação em Belém reúne mais de 1 mil reclamações contra Águas do Pará às vésperas da eleição

Manifestantes afirmam ter reunido mais de 1 mil reclamações de consumidores e apresentado mais de 100 kits de denúncia durante ato na capital paraense

Edinei Campos

Por Edinei Campos

Redacao Amazonia Onze

03 de out. de 2026
Manifestação em Belém reúne mais de 1 mil reclamações contra Águas do Pará às vésperas da eleição

Foto: Redes Sociais

Uma manifestação realizada neste sábado (3), em Belém, reuniu moradores que contestam cobranças e problemas relacionados aos serviços prestados pela Águas do Pará, concessionária responsável pelo abastecimento de água e pelo esgotamento sanitário em municípios do estado.

Segundo os organizadores do ato, foram reunidas mais de 1 mil reclamações registradas por consumidores junto à empresa. Também foram apresentados mais de 100 kits de denúncia, com contas de água, protocolos de atendimento, documentos de cobrança e relatos de consumidores.

Entre as queixas relatadas estão cobranças consideradas indevidas pelos usuários, aumento expressivo no valor das faturas, contas acima do consumo habitual e interrupções no abastecimento.

A manifestação ocorreu um dia antes do primeiro turno das eleições no Pará e incorporou ao protesto críticas ao modelo de concessão dos serviços de saneamento adotado pelo governo estadual. Os organizadores responsabilizam politicamente o ex-governador Helder Barbalho (MDB) e a governadora Hana Ghassan (MDB) pelas decisões relacionadas ao modelo.

A cobrança dos manifestantes ocorre em um momento em que órgãos públicos também adotaram medidas relacionadas ao funcionamento da concessionária.

Órgão regulador determinou suspensão de cobranças em setembro

Em setembro, a Agência de Regulação e Controle de Serviços Públicos do Pará (Arcon) notificou a Águas do Pará para suspender cobranças e reativações de cadastros realizadas sem comprovação técnica.

Segundo a agência, foram identificados indícios de reativação automática de cadastros antigos e inativos que pertenciam à base da Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa), além de casos de faturamento por estimativa em imóveis que haviam solicitado o desligamento do serviço ou que possuem sistemas próprios de abastecimento.

A Arcon também determinou a revisão dos procedimentos e a realização de vistorias técnicas antes da manutenção de determinadas cobranças.

As medidas regulatórias ocorreram depois de reclamações de consumidores sobre a transição entre a Cosanpa e a Águas do Pará.

Como funciona a concessão

O modelo que está no centro das críticas foi estruturado pelo governo do Pará e levado a leilão em abril de 2025. Na ocasião, a Aegea Saneamento venceu o leilão realizado na B3 para assumir, por 40 anos, a prestação regionalizada dos serviços inicialmente prevista para 99 municípios. O projeto previa R$ 15,21 bilhões em investimentos nessa etapa.

Posteriormente, a estrutura da concessão passou a abranger 126 municípios. Segundo a própria Águas do Pará, estão previstos quase R$ 19 bilhões em investimentos ao longo dos 40 anos de contrato, com metas de ampliação do abastecimento de água e do esgotamento sanitário.

A mudança, porém, não significou a extinção da Cosanpa. A companhia continua sendo uma empresa estatal e, em municípios como Belém, Ananindeua e Marituba, permanece responsável pela produção e pelo fornecimento de água tratada à concessionária, enquanto a Águas do Pará opera a distribuição e o atendimento aos consumidores.

A operação definitiva da concessionária começou antecipadamente em 1º de setembro de 2025 nos três municípios da Região Metropolitana de Belém.

Concessão entrou no debate eleitoral

A forma como a concessão foi estruturada passou a ser também uma questão de campanha eleitoral.

A governadora Hana Ghassan, que assumiu o governo após a saída de Helder Barbalho para disputar uma vaga ao Senado, é candidata à reeleição. Durante o ato deste sábado, manifestantes cobraram dos candidatos posicionamentos sobre o contrato e sobre os problemas relatados por consumidores.

Na oposição, a candidata Araceli Lemos (PSOL) defende a revisão do contrato e já declarou publicamente que pretende reavaliar a concessão caso seja eleita.

As críticas também são feitas por representantes dos trabalhadores do setor de saneamento e por parlamentares que defendem mudanças no modelo adotado pelo Estado.

Do outro lado, a concessão é defendida pelo governo estadual e pela empresa como uma forma de ampliar os investimentos e acelerar a universalização dos serviços. A Águas do Pará afirma que o contrato prevê investimentos de quase R$ 19 bilhões e metas de atendimento que deverão ser alcançadas ao longo da concessão.

Reajuste de 4,38% foi postergado

Outro ponto que deverá continuar no centro da discussão após as eleições é o reajuste tarifário.

A concessionária acionou o mecanismo contratual referente a um reajuste de 4,38%, previsto para abril de 2026. A aplicação, no entanto, foi negociada para ocorrer posteriormente ao período eleitoral, segundo informações divulgadas sobre o processo de reequilíbrio econômico-financeiro do contrato.

O mesmo conjunto de medidas alterou a forma de compensação relacionada ao Programa Água Pará, benefício destinado a consumidores de baixa renda.

O primeiro termo aditivo aos contratos prevê redução progressiva dos descontos nos próximos anos. O documento estabelece desconto de 79,44% em 2027, de 59,58% em 2028, de 39,72% em 2029 e de 19,86% em 2030. A partir de 2031, passa a valer a estrutura tarifária prevista nos contratos.

O acordo também prevê alterações no valor pago pela concessionária à Cosanpa pela água tratada, como parte do mecanismo de reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos.

Protesto ocorre na véspera da eleição

A manifestação deste sábado colocou, portanto, um problema de prestação de serviço no centro de uma discussão política que já envolve o futuro da concessão.

Os manifestantes afirmam que as mais de 1 mil reclamações reunidas representam apenas parte dos problemas enfrentados pelos consumidores e pretendem utilizar os documentos apresentados no ato para cobrar respostas da concessionária e dos órgãos responsáveis pela fiscalização.

A Águas do Pará é responsável pelos serviços em 126 municípios paraenses e afirma que mantém como metas a ampliação do abastecimento de água e do esgotamento sanitário ao longo do contrato de 40 anos.

Com o primeiro turno marcado para este domingo (4), o modelo de concessão, as cobranças feitas pelos consumidores e as medidas adotadas pelos órgãos de regulação passam a integrar o debate sobre a política de saneamento do Pará.

Impacto local
Cobertura: Pará

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